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segunda-feira, 30 de março de 2015

Leituras paralelas


Regressar a casa sozinho e noite dentro
quando o silêncio das árvores da rua se acentua
e os poemas que nunca hás-de fazer te atingem
com o fragor de telhas caídas de um telhado
mesmo em cima da tua cabeça - tanta fragilidade
E por fim entrar em casa, ordeiramente
A essa hora todo e qualquer remorso
é coisa de somenos, importante sim
para dormir, para brincar, só a morte
Ursinho de peluche no travesseiro
da cama - a tua morte


Rui Caeiro, Sobre a nossa morte bem muito obrigado,
com capa de Luís Henriques,
Lisboa: Alambique, 18 de Abril de 2014






URSOS


Um homem que foi atacado por um urso relata 
não é das garras nem dos dentes que se recorda
mas apenas da prolongada macieza do seu pelo


Rui Caeiro, Deus e outros animais,
org. Delfim Lopes, desenhos de Bárbara Assis Pacheco 
e posfácio de José Ángel Cilleruelo, Lisboa: Averno, 2015

quarta-feira, 25 de março de 2015

UMA ORAÇÃO


Senhor que tudo sabes e podes
e nada fazes e ainda bem
livrai-nos das prostitutas mais irresistíveis
e dos padres que tudo perdoam
e dos poetas que têm missão a cumprir
mas principalmente livra os outros
livra todos os outros
dos inúteis sonhadores pretensiosos
inveterados bêbados como Tu e eu




Rui Caeiro, Deus e outros animais,
com organização de Delfim Lopes, 
desenhos de Bárbara Assis Pacheco e posfácio de José Ángel Cilleruelo, 
Lisboa: Averno, 2015 

sábado, 20 de setembro de 2014

RETRATO

Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem


Rui Caeiro, Livro de Afectos, 
Lisboa, edição do autor, 1992

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

UMA HISTÓRIA DOS SONHOS

[...] 
Como se num palco escuro ou vazio, ou uma coisa e outra, um único foco de luz apontasse para um homem sozinho e desmunido de particulares atributos, ou só com um único atributo, o seu sonho. O seu sonho que é o que dele acabamos por saber e praticamente a única coisa que dele ficamos a saber. Como se o palco não fosse ocupado por um homem de carne e osso, rodeado das suas várias circunstâncias, mas pelo seu sonho apenas. Um sonho estranho, como quase todos os sonhos, mas de que valesse a pena relatar os possíveis detalhes. O palco até pode estar materialmente vazio, como se numa peça de Samuel Beckett, mas esse vazio é ilusório porque há um pano de fundo e esse pano de fundo tem um nome. Podemos chamar-lhe História. É, de resto, na História que se inscrevem os sonhos dos homens, que dela ficam a fazer parte integrante e ela ficam a ocupar um lugar menos que diminuto. Nem dará para uma nota de pé de página.
[...]


RUI CAEIRO
in Em Torno do Desejo de Prisão, a partir de um conto de Elizabeth Bishop, 
traduzido por Helder Moura Pereira, com um posfácio de Rui Caeiro 
e ilustrado por Mariana Gomes, Lisboa: Letra Livre, 2009

sexta-feira, 8 de agosto de 2014


«Tejido en carne viva», escribe Rui Caeiro en un aforismo con rotundidad de poética, «—único lugar donde verdaderamente da gusto escribir». Sus variaciones sobre el asunto del morir parecen, antes que escritas, conversadas entre amigos. El hilo con el que teje la lengua poética brota en fuentes coloquiales, pero recoge aguas de pensamiento y de sensibilidad en su cauce. La obsesión, siempre, es encontrar un punto de vista no usado desde el que pensar sobre lo que piense. Entre dos polos que atraigan ideas, Rui Caeiro huye siempre de los dos. Entre angustia y alegría, elige la salsa agridulce.



Ainda atacas
como pode atacar um amor já ido
lá de vez em quando ainda atacas
irrompes num súbito alarme
sacodes-me de alto a baixo
impiedosa
mente
sacodes
me
e devagar te afastas
como um sol a por
se


Rui Caeiro, Sobre a nossa morte bem muito obrigado,
Lisboa: Alambique, 2014

domingo, 20 de julho de 2014

VERÃO


É um jardim claro, entre muros baixos,
de erva seca e de luz, que devagar coze
a sua terra. É uma luz que sugere o mar.
Respiras essa erva. Tocas os cabelos
e  fazes brotar a recordação.

                                                               Vi tombar
muitos frutos doces na erva familiar,
com um baque. Assim te sobressaltas também
ao tremor do sangue. Moves a cabeça
como se em torno ocorresse um prodígio impalpável
e o prodígio és tu. Há um mesmo sabor
nos teus olhos e na cálida recordação.

                                                                     Escutas.
As palavras que escutas tocam-te ao de leve.
Tens no rosto calmo um pensamento claro
que nos teus ombros imita a luz do mar.
Tens no rosto um silêncio que atinge o coração
opresso, e destila uma antiga pena
como o sumo dos frutos caídos nesse tempo.


Cesare Pavese, O Vício Absurdo,
sel. e trad. Rui Caeiro,
Lisboa: & etc, 1990

domingo, 6 de julho de 2014

#1




Rui Caeiro, Sobre a nossa morte bem muito obrigado,
com capa de Luís Henriques e arranjo gráfico de Inês Mateus,
Lisboa: Alambique, 2014
[Tiragem de 300 exemplares]